5. INTERNACIONAL 6.3.13

1. AS URNAS OPERAM MILAGRES
2. UMA GRANDE PALHAADA

1. AS URNAS OPERAM MILAGRES
Depois das derrotas presidenciais, j tem republicano defendendo o que antes era impensvel: casamento gay e ampliao da sade pblica.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     Enquanto a oposio brasileira acusa o partido do governo de no lhe render homenagens pstumas, a oposio americana revira as vsceras para ressuscitar. Depois de duas derrotas presidenciais seguidas, esse processo tem feito surgir dvidas inimaginveis at h pouco tempo. Como: ser que os republicanos devem mesmo barrar o casamento homossexual? Ou: ser que devem seguir se opondo  ampliao do sistema de sade pblica? Ou ento: o Tea Party, brao do partido que defende um conservadorismo feroz, exerce uma influncia positiva ou negativa?
     Na semana passada, o governador de Nova Jersey, Chris Christie, cujo peso poltico equivale ao peso fsico, aderiu  ampliao do Medicaid, o servio de sade que atende os pobres. No Congresso, os republicanos votaram em unssono contra a ampliao do Medicaid, ponto fulcral da reforma da sade de Obama. Christie justificou a deciso dizendo que segue contra a medida, mas "agora  a lei do pas". Candidato  reeleio num estado de tradio democrata, Christie tem ambies presidenciais e, ao ampliar o Medicaid, vai oferecer sade gratuita a 100.000 pobres. Para irritao dos guardies da ortodoxia conservadora, ele  o oitavo governador republicano a faz-lo. At Rick Scott, da Flrida, ex-executivo do setor de sade, encampou o Medicaid.
     Antes, o ex-governador de Utah Jon Huntsman, mrmon que disputou as primrias com o mrmon Mitt Romney, anunciou que  a favor do casamento gay. Escreveu um artigo instando seus correligionrios a mudar de posio: "O partido de Lincoln deve alinhar-se  nossa melhor tradio de igualdade". Ainda assinou um documento que ser levado  Suprema Corte num processo em favor da legalizao do casamento gay. Entre os signatrios, esto quatro ex-governadores e dois ex-parlamentares republicanos, alm de assessores do ex-presidente Bush filho. Parece que republicano s  contra o casamento gay quando est no exerccio de um cargo. Fora dele, solta o verbo. 
     O estrategista Karl Rove, que ganhou fama como arquiteto-mor das duas vitrias de Bush filho, criou um comit para barrar a candidatura de radicais de direita nas prximas eleies. Rove acha que os direitistas ferozes prejudicaram a legenda nas urnas e impediram que ganhasse maioria no Senado. De fato, em Indiana, Delaware, Nevada, Missouri e Colorado os candidatos ao Senado, todos nomes apoiados pelo Tea Party, eram to radicais que o eleitor se refugiou nos democratas. A iniciativa de Rove enfureceu os pelotes do Tea Party. Um site do partido vestiu-o com uniforme de nazista. Outro o acusou de inventar moda s para manter-se como "estrategista de Washington". At Donald Trump, cuja sensatez poltica  uma ddiva para os humoristas, deu pitaco: Rove  um completo perdedor".
     O sarapatel republicano  uma reao natural e saudvel s derrotas nas urnas. Mas pode ser sintoma de crise mais profunda. Desde os anos 70, o Partido Republicano vem gradualmente migrando para posies sempre mais conservadoras. Com isso, a hostilidade  herana liberal das gestes democratas  o New Deal de Franklin Roosevelt e a Great Society de Lyndon Johnson  tornou-se cada vez mais exacerbada. S que as conquistas das administraes democratas eram na poca, e so ainda hoje, altamente populares. A isso, junta-se a mudana demogrfica do eleitorado. Os segmentos que mais crescem (jovens, negros, latinos e asiticos) so francamente democratas. So mais simpticos ao papel social do estado e mais tolerantes com a diversidade tnica e sexual. Nesse novo ambiente, o Partido Republicano, pelo menos a ala mais raivosa, parece um peixe cada vez mais longe da gua. Ser que comea assim o fim do radicalismo de direita?


2. UMA GRANDE PALHAADA
Os eleitores italianos ressuscitaram Berlusconi e transformaram o comediante Beppe Grillo no chefe do maior partido do pas. A piada j est saindo caro para a Itlia e o resto da Europa
MRIO SABINO, DE ROMA

     O jornalista e escritor Luigi Barzini, em seu excelente livro Os Italianos, de 1964, ao tentar explicar o carter de seu povo aos americanos, comea com as seguintes perguntas: "Por que a nossa existncia nacional sempre foi to difcil? Por que nutrimos, desde a Idade Mdia, uma irracional esperana de encontrar um Prncipe, um Chefe, um Partido, um Instituto supranacional ou at mesmo sobrenatural que nos exima do peso das nossas liberdades e da responsabilidade do nosso destino?". Barzini faz um mergulho histrico para encontrar os motivos, e contudo as questes continuam irrespondveis, como demonstra o resultado das eleies italianas, na semana passada, que deixou a Europa  e o mundo  em estado de choque.
     Por causa de uma lei eleitoral esquisita como espaguete com ketchup, apelidada de "Porcellum", ou "coisa de porco", que garante um prmio de maioria absoluta na Cmara mas estabelece um sistema proporcional no Senado, das urnas saiu vencedor um perdedor. E dois perdedores transformaram-se em vencedores. A coalizo liderada pelo Partido Democrtico (PD), de Pier Luigi Bersani, que poderia aliar-se ao ainda primeiro-ministro Mrio Monti para manter a Itlia dentro dos trilhos da responsabilidade financeira, com destino  retomada do crescimento econmico, ganhou a maioria na Cmara e no a alcanou no Senado. Monti, seu possvel parceiro, conseguiu mseros 10% dos votos. J a coalizo sustentada pelo Povo da Liberdade, de Silvio Berlusconi, personagem que todos acreditavam morto, amealhou cerca de 30% dos votos, quase a mesma quantidade obtida pela coalizo do PD. O outro perdedor vencedor  o Movimento Cinco Estrelas, do comediante Beppe Grillo, que no fez coalizo com ningum. Com 25% dos sufrgios, seu partido, agora,  a maior agremiao poltica da Itlia.
     Os italianos, que j passavam ridculo com Berlusconi, enveredaram pelo caminho da palhaada com Grillo. Ele  s mais um capo de que falava Luigi Bersani, a quem o pas se entrega como uma espcie de suicdio, para eximir-se de suas responsabilidades. A austeridade , decerto, um po amanhecido difcil de mastigar para uma populao acostumada  dolce vita proporcionada pelos anos que fizeram da Itlia uma das naes mais ricas do planeta. Bersani e o prprio Monti, que salvou o pas da falncia, ofereciam mitig-la. A maior parte dos eleitores, no entanto, rendeu-se aos urros de Grillo contra o sistema e ao populismo de Berlusconi, que, durante a campanha, prometeu devolver dinheiro de impostos aos contribuintes e, neste momento, posa de responsvel.
     Para formar um governo a partir de 20 de maro, quando o novo Parlamento se instalar, Bersani estendeu a mo ao palhao Grillo. Ouviu um no recheado de desaforos  "Bersani  um morto-vivo" foi uma das delicadezas. Grillo quer ser primeiro-ministro. Grillo quer governar por meio de decises populares tomadas via internet. Grillo quer sair da zona do euro. Grillo quer dar mesada a jovens desempregados. Grillo quer varrer do mapa os outros partidos. Grillo quer abolir os trens de alta velocidade. Antes das eleies, o comentarista Stefano Folli disse a VEJA que Grillo poderia ser um elemento de muita turbulncia, se seu partido chegasse a 18% na Cmara. Como conseguiu ainda mais cadeiras de deputados e uma quantidade respeitvel de assentos no Senado, a turbulncia virou tempestade. Uma tempestade perfeita. Enquanto isso, Berlusconi est ali, oferecendo sua "governabilidade" ao PD. Berlusconi, que retirou o apoio a Mrio Monti em meio s reformas que estavam tirando a Itlia do atoleiro. Berlusconi, que agora  acusado por um senador de ter comprado sua adeso ao Povo da Liberdade por 3 milhes de euros, em 2006. Berlusconi, que continua ru em processos que incluem a explorao de prostitutas.
     O presidente da Repblica, Giorgio Napolitano, tambm de sada, faz o que pode para salvaguardar a imagem da Itlia. Cancelou um jantar com o alemo Peer Steinbrueck, adversrio da chanceler Angela Merkel nas eleies de setembro, depois que ele disse que a maioria dos italianos havia votado em dois palhaos. Napolitano est certo, mas a fala de Steinbrueck no  piada: as bolsas caram e o euro voltou a balanar. Novas eleies devero ocorrer na Itlia mais cedo do que se imaginava  e, espera-se, sob uma lei eleitoral que deixe de ser essa porcaria que facilitou a vida de Grillo e Berlusconi.


